Palestrante: Nazaré Pereira

A cantora e compositora Nazaré Pereira, acreana de Xapuri, encantou o público no Salão Voz Coletiva, na Casa Dourada. Com uma trajetória marcada pela valorização e internacionalização da música nortista e nordestina, a artista levou ao Motins um capítulo importante dessa história na palestra “Quando a música do Rio Guajará atravessou o Oceano Atlântico”.

Filha de pai sanfoneiro, de origem italiana, e mãe acreana, Nazaré demonstrou interesse pela música ainda na infância. Mudou-se de Xapuri, no Acre, para o Pará ainda pequena e, já jovem, participava de programas de calouros em rádios de Belém. Persistente, mesmo ouvindo dos jurados que “cantava mal”, nunca desistiu. Seguiu seu caminho entre o teatro, a música e a dança. Na década de 1970, Nazaré estudou no Conservatório Nacional de Teatro, no Rio de Janeiro, onde se formou como atriz e diretora.

A oportunidade de ir para a Europa surgiu após vencer o programa A Grande Chance, apresentado por Flávio Cavalcanti, na extinta TV Tupi. Ainda nos anos 1970, mudou-se para a França, estabelecendo-se inicialmente em Nancy, onde deu continuidade aos estudos em teatro.

Sua chegada a Paris foi desafiadora: sem falar francês, buscou apoio em uma casa de estudantes brasileiros, onde encontrou o escritor Jorge Amado, que a ajudou nos primeiros momentos na cidade. Mesmo diante de recusas, Nazaré persistiu. Em uma situação decisiva, afirmou ao diretor da escola de teatro que havia sido enviada pelo então Ministro da Educação, Jarbas Passarinho. Desconfiado, o diretor entrou em contato com a UNESCO, e o ministro, que também estava em Paris, confirmou seu potencial, dizendo que ela era “o futuro do Brasil que estava na porta”.

Já em Nancy, mesmo sem dominar o idioma, Nazaré encontrou uma forma criativa de superar a barreira linguística. Com a ajuda de um namorado francês que falava espanhol, escreveu e decorou cerca de 15 páginas com possíveis perguntas e respostas em francês para a entrevista na escola de teatro. O desempenho surpreendeu o diretor, garantindo sua bolsa de estudos.

Mais tarde, de volta à Paris, começou a cantar nas ruas e no metrô para se sustentar. Aos poucos, passou a substituir amigos em apresentações, dando início à difusão da música brasileira, especialmente a nortista e nordestina, em território europeu. Apesar de enfrentar resistência até mesmo de brasileiros, que por vezes classificavam seu repertório como “cafona”, Nazaré encontrou nisso ainda mais força para seguir: “foi aí que começou a minha luta pela música brasileira, para provar que nós existíamos culturalmente”, afirmou. 

A trajetória de Nazaré Pereira reafirma a potência da música como instrumento de identidade, resistência e afirmação cultural, atravessando fronteiras e conectando territórios.

Foto: Wagner Filmes

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