Painelistas: Gerson Dias, Jeft Dias, Bruna Suelen e Vilson Vicente

Para encerrar o Motins e o Ciclo da Dourada, o Salão Voz Coletiva recebeu o painel “Construção do Conceito Festival Psica 2026”. No encontro, os responsáveis pela construção e concepção criativa do festival, Jeft Dias, Gerson Dias, Bruna Suelen e Vilson Vicente compartilharam caminhos, referências e alguns spoilers do que vem na nova edição. A programação aconteceu em formato de roda de conversa, abrindo espaço para que o público conhecesse o processo criativo e também contribuísse no debate.

A construção do conceito parte de uma narrativa pensada anualmente, como uma história a ser contada. O primeiro desenho surge com Jeft e Gerson, que desenvolvem a base conceitual. Em seguida, a ideia chega até Bruna, diretora criativa, que aprofunda e expande as referências. Por fim, Vilson traduz esse universo em linguagem visual, criando a identidade do festival. Embora o processo já seja colaborativo entre a equipe, esta foi a primeira vez que ele foi aberto ao público de forma direta.

Pensar um tema a cada edição fortalece a identificação do público com o festival. Para além de sua origem periférica, o Psica constrói vínculos afetivos por meio dessas narrativas, que atravessam não só Belém, mas também os interiores do Pará. “É muito bonito ver pessoas de vários lugares dos interiores, porque a gente faz isso, buscamos as pessoas dos interiores, com suas narrativas, para participar do momento do festival”, destacou Bruna.

O Ciclo da Dourada, iniciado em 2024, teve como base o percurso do peixe pela Pan-Amazônia — nascendo na Amazônia Andina, no Equador, descendo os rios até o delta do Amazonas, na região da Ilha do Marajó, depois retornando para a cabeceira do rio. Em 2025, o conceito se aprofundou com “A volta da Dourada” e encerrando o ciclo no Motins.

Para 2026, o festival aponta para um novo direcionamento: a Amazônia enquanto guia global — fonte de tecnologia, ancestralidade e cultura, além de elo entre o Brasil e outros países da América Latina. “Estávamos vendo esse processo de progressão de conceito e buscamos fortalecer essa ideia do Norte como uma estrela guia. A partir dessa frase, desenvolver o pensamento”, comentou Bruna.

Entre as referências visuais e simbólicas, surgem elementos como as bandeiras do Pará e do Brasil, especialmente a presença da estrela solitária, além de inspirações nas revoltas e movimentos históricos do Norte e Nordeste, e de outros territórios da Pan-Amazônia. “O Psica também carrega essa ideia de revolta, de não aceitar padrões impostos e criar os nossos próprios. A gente se espelha nessas revoluções e quer trazer isso para o tema deste ano”, afirmou Jeft.

Gerson reforçou o posicionamento do festival: “a gente vem se preparando para colocar o Norte como protagonista. Já trabalhávamos com a ideia de ‘o Brasil visto do Norte’. Hoje alcançamos lugares que antes não conseguíamos, e nossa voz está mais amplificada. Esse conceito é para levar ao restante do país o que a gente já vem construindo: um movimento de dentro para fora, e não o contrário”.

O posicionamento também se conecta à luta pelo acesso à cultura, ainda marcada por desigualdades no país. Vilson destacou o papel do Psica nesse enfrentamento: “a principal defesa do Psica é a cultura periférica. Mais da metade da captação da Lei Rouanet está concentrada em um único bairro de São Paulo, isso mostra o quanto o acesso ainda é elitizado. A defesa do Psica é a valorização da cultura popular a partir de um olhar da periferia”. 

Além das falas da equipe, o painel foi marcado pela participação ativa do público, que contribuiu com ideias e reflexões em um momento coletivo de criação. A abertura desse processo reforça o caráter colaborativo do festival e amplia as possibilidades para o conceito de 2026.

O Ciclo da Dourada se encerra junto com o último dia do Motins, deixando um legado marcado pela conexão pan-amazônica, pela circulação de narrativas e pela internacionalização do festival — um percurso que, assim como o da Dourada, atravessa territórios e retorna fortalecido.

Foto: Wagner Fotos

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