Do Avuado à Dourada: painel trás olhares sobre alimentação na Amazônia

O painel sintetizou diversos olhares sobre a alimentação e a cultura que a cerca, passando pela identidade ancestral, turismo e insegurança alimentar

Texto: Frida Menezes | Edição: Gustavo Aguiar | Foto: Liliane Moreira

Pra combinar com a hora do almoço, ocorreu o painel “Amazônia, Alimentação Ancestral: uma cozinha de território” mediado pela Professora Sidiana Ferreira, autora do livro “Do que se come: uma história do abastecimento e da alimentação de Belém”, com diversos nomes de peso e suas respectivas pesquisas: Professor Doutor Miguel Picanço com a pesquisa “Avuado: Identidades e pertencimentos Amazônicos”, Professora Mestra Layane Santos com a pesquisa “Cultura Alimentar de Periferia: entre crise inflacionária e a busca de um sonho”, e o professor Álvaro do Espírito Santo, com a pesquisa “O peixe amazônico como atrativo do turismo gastronômico, ontem e hoje”. 

Miguel trouxe para o debate a cultura do Avuado (com U para reconhecer a linguística do povo ancestral), que tem atravessado a vida dele como caboclo nativo de Arari no município de Augusto Corrêa. O Avuado é mais do que uma comida, é um modo particular de cozinhar o peixe na brasa. Não se usa qualquer condimento ou qualquer tempero, já vem temperado e não exige artefatos para mediar a relação entre homem e fogo, além de se dispensarem talheres. Todo esse processo gera sociabilidades nas comunidades que o consomem, além de garantir a permanência e reinventar as lógicas de pertencimento.

Em consonância com o tema da Dourada, trabalhado na palestra que aconteceu anteriormente ao painel, o professor Álvaro falou sobre o consumo do peixe na culinária como fomentador do turismo local. Uma das questões relevantes tratadas foi o que o turista busca consumir em termos de peixes amazônicos. Uma premissa do turismo é que quem está viajando busca saber o que é próprio do território visitado. 

O peixe, que faz parte da nossa natureza amazônida, gera demanda dos restaurantes de culinária local. Entre os peixes mais procurados estão o pirarucu, a dourada e o filhote. O pesquisador ressaltou também a importância das rotas gastronômicas espalhadas pelo estado e presentes em diversos festivais de culinária que ocorrem. Além de falar sobre o futuro que se pensa para a região: “que modelo de desenvolvimento nós queremos para a gastronomia da Amazônia? Se olhar pra região Oeste do Pará vai perceber a incidência de peixes com mercúrio, vítimas do processo de mineração. Se quisermos guardar os tesouros que temos aqui é preciso fazer um esforço político para um desenvolvimento que não seja agressivo”, frisou o professor Álvaro.

Um dos problemas relacionados à alimentação é a desigualdade de acessos. “Muito se fala em saúde e alimentação saudável, mas será que todas as populações têm acesso a isso?”, questionou a professora Layane Santos, que pesquisa o consumo alimentar em uma ocupação do Paar em Ananindeua, onde ela reside. A população reivindica não só moradia de qualidade, mas também acesso a alimentação saudável para as pessoas que ali moram. 

Infelizmente, a periferia segue sendo colocada de lado nessas discussões. Ao pensar sobre abundância da culinária paraense, não se pensa em dar acesso igualitário a ela. Foi observado também como a feira, espaço de sociabilidade e acesso a diversidade de produtos alimentícios tão característica das periferias, mudou. Hoje, o feirante não tem mais os mesmos acessos que antes tinham aos produtos, como coletar frutas da natureza ou pescar nos igarapés, que morreram nos territórios vendidos para construção civil. 

O Festival Psica Dourado tem patrocínio máster da Petrobras, do Nubank e patrocínio do Mercado Livre através da Lei de Incentivo à Cultura Rouanet e Ministério da Cultura. O apoio institucional é da Secretaria de Estado de Cultura e Governo do Pará. A realização é da Psica Produções, Ministério da Cultura e Governo Federal União e Reconstrução.