O balanço dos ritmos que tocam a conexão Pará-Maranhão

Como as tecnologias criam sons que ultrapassam as fronteiras territoriais 

Texto: Lorena Oliveira | Edição: Gustavo Aguiar | Fotos: Liliane Moreira

Os nomes “Diamante Negro” e “Club Pop Som” não são estranhos a paraenses e maranhenses. Ouvi-los remete a musicalidades muito características dessas culturas, as aparelhagens e as radiolas. No entanto, muito além da proximidade nominal desses soundsystems, elas se conectam em histórias, em modos de fazer, na sonorização e na cultura criada em volta da música. O painel “Conexões Sonoras: Radiolas e Aparelhagens”, realizado no circuito Motins, se propôs a aproximar essas tecnologias, discutindo o surgimento e a formação social imbricada com a música, investigando a relação entre os estados vizinhos Pará e Maranhão.

Entre os anos 1970 e 1980, ao visitar as casas na cidade de São Luís, era comum encontrar a mesma cena: famílias ouvindo reggae em volta de radiolas. Essa tecnologia, hoje considerada vintage, consistia em um móvel grande utilizado para tocar discos e localizado nas salas das casas. O ritmo tocado nesses aparelhos transformou a cidade e as relações sociais em volta da música e deu à capital a alcunha de “Jamaica brasileira”.

“O reggae chega no Maranhão nos anos 70. E muito se especula sobre como ele chegou. Mas entre as versões, duas são mais aceitas: que o ritmo chegou pelos portos, porque era um som tocado por marinheiros. E que ele chegou por discos comprados no Pará”, afirma Karla Freire, pesquisadora maranhense.

A popularização do reggae se deu nas festas. Era comum que as pessoas que comandavam a seleção de músicas escolhessem ritmos como salsa, merengue e lambada para tocar no início das festas e, quando o público já estava cansado de danças, entrava um ritmo mais lento, o reggae. As letras não eram muito conhecidas, a filosofia rasta também não, mas o som era cada vez mais pedido. Nesse ponto, o reggae começou a fazer sucesso nas baladas românticas, embalando casais apaixonados em uma dança que se dançava coladinho, hoje conhecido como reggae roots. As radiolas foram a tecnologia responsável pela popularização desse ritmo no Maranhão. 

De forma semelhante foi a chegada das aparelhagens em Pará. O historiador Antônio Maurício conta a importância de aparatos tecnológicos para difusão dos ritmos que tocam o coração paraense, como o brega, lambada e salsa. “No pós-Segunda Guerra Mundial, o mundo estava passando por um processo de reconstrução, de descolonização e de forte trânsito cultural entre o caribe e países como o Brasil e Estados Unidos. Assim, o crescimento da indústria fonográfica proporcionou a popularização de tecnologias de sonorização. Na prática, isso significou que muitas pessoas podiam ir às lojas comprar microfones, discos e outras ferramentas de sonorização e música.”, aponta.

Com a facilidade de acesso, o som podia agora ser difundido e amplificado nas casas, em festas e em eventos, familiares e coletivos. A família que possuía aparelhos de som detinha um status e, para demarcar esse status, foram criados os “sonoros”, vinhetas que eram executadas no início das festas para comunicar os Djs que tocariam naquele evento e o local da festa. Hoje, essas vinhetas são chamadas de “prefixos”. Em analogia, é como uma intro em álbuns musicais.

Nos anos 90, com o avanço das tecnologias, com novas mixagens e samples, também surgem as aparelhagens com um potencial sonoro ainda maior, ocupando espaços ainda maiores e criando as festas de aparelhagem. Esse é o momento do Brega Pop, como diz a cantora Gaby Amarantos. O modo de fazer as festas se modifica, os elementos tecnológicos novos se mesclam com o modus tradicional, a popularização das músicas através da internet cria um movimento musical cosmopolita.

Esse impacto também foi sentido na relação entre radiola e reggae. O ritmo mais lento se viu diante de uma revolução estética produzida pelas novas soundsystems do funk, do piseiro, rock e outras. No entanto, a cena musical do reggae maranhense não é uníssona. As bandas e radiolas disputam o direito de produção desse som, defendendo elementos muito próprios que agradam suas audiências.

Ambas manifestações musicais permanecem se reinventando em casas, bares, ruas e festas. Sobre essas mudanças, a avaliação é positiva. “O que a gente tem percebido é que esses ritmos cresceram, expandiram fronteiras e agora estão experimentando novos formatos. Independente dos conflitos, é bom ver o protagonismo que esses sons têm conseguido alcançar. Música é a conexão humana, com o tempo, o espaço, com outras pessoas.”, afirma Karla Freire, pesquisadora.