As vozes dos rios deságuam no Motins Psica com Zaynara, Priscila Castro e Thays Sodré

Encontro de cantoras aconteceu na noite desta quinta-feira (30) com um papo sobre raízes, música e, atenção fãs, um pouquinho de spoilers

Texto: Maycon Marte | Edição: Gustavo Aguiar | Fotos: Felipe Martins

A noite de quinta-feira (30) foi marcada pelo encontro de vozes potentes do Pará que compartilham, além do talento, a experiência de crescer e se construir a partir das vivências na beira e nos entornos dos rios. A conversa aconteceu na programação da noite do Motins Psica, protagonizada por Zaynara, Priscila Castro e Thays Sodré, com mediação de Naieme. Em todas elas, as memórias dos territórios e a relação com a arte se misturam, assim como as águas desses lugares que viajaram o mundo com elas que impulsionam seus trabalhos e reafirmam suas raízes.

“Eu não sei ser outra cantora, senão a cantora da Amazônia”, afirma Priscila Castro sobre a sua formação. A cantora e atual secretária de cultura do município de Santarém, região do baixo Amazonas, defende a valorização da cultura como direito básico. Ela conta que seu posicionamento político é também a sua arte, mas que qualquer transformação no nosso território só virá com “a aplicação de políticas públicas”.

As questões que atravessam a sua música também atravessam a pauta climática ambiental. Castro menciona, por exemplo, que essa é a origem do nome de seu álbum de estreia, intitulado “A Voz do Rio”. Da escolha das músicas a finalização do projeto, a artista explica uma intenção de valorizar a cultura que recebeu desde criança, mas também de criticar os descasos com as riquezas da terra.

“A mudança climática afeta a nossa cultura diretamente, afeta a forma que eu durmo, que eu como, tudo é atravessado pela minha cultura… E, não é porque todos estão cercados de água que temos água potável. Há comunidades que vivem a realidade do racionamento de água e de doenças relacionadas à água”, questiona Castro.

Da beira do rio Capim, a cantora Thays Sodré — do município de São Domingos do Capim, capital da pororoca, evento que marca o encontro das águas — espera levar a produção do Norte adiante. “A gente não ama o que não conhece, então a gente tem que se fazer conhecer e levar essa cultura adiante”, afirma. Para Sodré, a arte é instrumento de mudança e, por isso, defende que cumprir o nosso papel é “fazer o que pode, com o que está ao nosso alcance”.

Referência musical

As artistas relatam memórias banhadas pelo rio sempre que tentam encontrar o ponto de partida de suas carreiras. Seja a família, a igreja ou os bregas tradicionais das regiões em que cresceram. Tudo se soma para lapidar quem são hoje. E hoje, as suas trajetórias também apoiam o sonho das mais novas.

É o caso de Samela Viana, maquiadora e cantora – ainda amadora – mas por pouco tempo. Segundo ela, a troca da conversa nesta noite, em especial com a cantora Zaynara, a quem dedica seu amor, lhe deu o “gás para continuar”.

“Eu, como uma pessoa que tô tentando construir uma carreira como artista, me inspiro nelas e isso foi encorajador. De vez em quando canto, mas fico mais na produção. Agora pretendo arriscar na carreira com certeza”, afirma.

Spoiler

No fim da conversa, a cantora Zaynara, instigada pelo público, revelou que o seu próximo lançamento, previsto para este ano, trará as águas como tema principal. Outros detalhes ainda ficaram em segredo, mas a artista, conhecida como “princesinha do beatmelody”, garantiu que pretende cantar sobre os mesmos rios onde cresceu. A cantora é natural de Cametá, município no nordeste paraense, e é recém premiada pelo Prêmio Multishow na categoria “artista revelação”.