Bois de Parintins e o Boi pavulagem compartilham os frutos de dividirem o palco no Festival Psica 2024
Texto: Lorena Oliveira | Edição: Gustavo Aguiar | Foto: Liliane Moreira
Em dezembro de 2024, os dois bois de Parintins se encontraram, pela primeira vez, com o Boi Pavulagem, no palco do Festival Psica, em Belém. O encontro foi um momento único e gerou inúmeros aprendizados sobre cultura e pertencimento das populações amazônidas. No painel “O que aprendemos com o encontro de gigantes da cultura popular?”, promovido no Motins, essas memórias foram revisitadas por Ericky Nakanome, do Boi Caprichoso, Susan Monteverde, do Boi Garantido, e Jr Soares, do Boi Pavulagem, com mediação do ator, professor e pesquisador Adriano Furtado.
“O espetáculo foi muito bonito, as pessoas estavam muito animadas. O momento gerou muitas emoções, foram criados sentimentos que unem as pessoas e as fortalecem, criando um território onde prevalece o respeito pelo outro.”, afirma Jr Soares, do Boi Pavulagem.

Os três bois representam práticas culturais ligadas à ancestralidade amazônida. Em Parintins, a clássica rivalidade entre Garantido, com vermelho, e Caprichoso, com a cor azul, movimenta milhões de pessoas em busca de acompanhar os espetáculos. Em Belém, o Boi Pavulagem leva muitos brincantes às ruas de Belém em um cortejo que combina música e coreografias, durante o período junino. Um ponto fundamental para compreender a relação desses símbolos com a cultura popular é a forte presença das pessoas, que leva a resistência e a ocupação de espaços de visibilidade.
A origem do Garantido remete às influências de povos escravizados. Segundo Susan Monteverde, representante do boi vermelho, a tradição do Garantido nasce no bairro Baixa de São José, um espaço de resistência de povos negros e a com presença de várias atividades culturais. Já o Caprichoso tem sua história tecida na coletividade, sendo construído por inúmeras famílias ao longo dos anos. Suas origens remetem a uma família que saiu do interior do Ceará em direção à Parintins.
O Boi Pavulagem surge como uma brincadeira. Uma reunião de artistas inconformados com a falta de consumo dos produtos culturais locais, uma “espécie de ativistas da época”, nas palavras de Jr Soares. Começou com grupo pequeno que teve influência de vários ritmos da pan-Amazônia que fazia um cortejo acompanhando o Boi Pavulagem.
A importância dessas manifestações culturais é gigante e transformadora, não apenas para as pessoas, mas para as cidades, para a economia. Assim como, naturalmente, foi necessário criar o Instituto Arraial do Pavulagem, os dois bois de Parintins ganharam projeção nacional, com o reconhecimento de figuras públicas ligadas à festa. No entanto, é preciso compreender que essa visibilidade gera novas demandas. “A gente precisa considerar os custos, os artistas locais, os interesses, a mobilidade, as distâncias, os meios de transportes e tudo que envolve um evento desse porte.”, afirma Nakanome, Caprichoso.

Por outro lado, a cultura também se revela como tecnologia pedagógica de resistência, que consegue romper as colonialidades com cinismo. O encontro dos bois marca um novo momento para as sociedades amazônicas porque eles conseguiram alcançar novos espaços no cotidiano. Segundo Susan Monteverde, Garantido, “A gente tem feito esse movimento de transformar bois em instrumento de educação, de levar cultura para outros espaços. É o nosso jeito de dar o recado através das manifestações populares criadas por quem resiste.”

O Festival Psica Dourado tem patrocínio máster da Petrobras, do Nubank e patrocínio do Mercado Livre através da Lei de Incentivo à Cultura Rouanet e Ministério da Cultura. O apoio institucional é da Secretaria de Estado de Cultura e Governo do Pará. A realização é da Psica Produções, Ministério da Cultura e Governo Federal União e Reconstrução.