Espiritualidade guia passado, presente e futuro no Motins Psica

Memórias de líderes religiosos são atravessadas por força e resistência em defesa do território

Texto: Maycon Marte | Edição: Gustavo Aguiar | Fotografia: Felipe Martins

Na noite desta sexta-feira (31), o público se reuniu para ouvir o conselho dos mais velhos e aprender com a sabedoria ancestral. A mesa que dialogou sobre “A espiritualidade da cultura pan-Amazônica” trouxe três representantes de linhas religiosas diferentes: Frei Messias, Pai Amilton e a Pajé Edite. Juntos, conduziram uma conversa sobre o poder do espiritual na defesa da vida e da sustentabilidade.

A jornada da pajé Edite do povo Borari até Belém durou cinco dias e cinco noites. Um trajeto enfrentado para lutar por direitos recentemente ameaçados pelo executivo estadual. Ela está entre os indígenas que ocupam a Secretaria de Estado de Educação (Seduc), após a remoção do ensino presencial por ordem do governo do estado. Ela conta que trouxe a sua espiritualidade para a luta, na intenção de também proteger os que lutam ao seu lado.

A pajé faz questão de compartilhar com os ouvintes sobre a rotina no seu território e as tradições que a mantém viva. “O que eu sei, eu vou levar tudo. A hora é agora para fazerem uma cartilha com os meus ensinamentos, porque depois que eu estiver dura na pedra, ali eu não vou ensinar mais ninguém”, afirma a liderança. Ela narra que possui cerca de 140 plantas que utiliza na produção de remédios, o que ela descreve como “o seu trabalho”.

Edite não entende o desrespeito à terra porque, para ela, “o território é a gente” e sem nós não tem futuro. Ela entende que suas plantas não virariam remédio para curar o sofrimento se não houvesse a sabedoria dos encantados e dos seus anteriores. Por isso, espera e defende que esse conhecimento se perpetue.

O Babakekere do Ofakare, pai Amilton, acrescenta que, dessa integralização de saberes e sentidos, a perspectiva amazônida é um filtro ainda mais importante. A partir da sua vivência como educador e líder religioso neste território, já que sua origem é o Nordeste, revelou um aprendizado único que apenas esta terra poderia proporcionar.

“Na ótica da cultura Amazônica a gente não pode perder de vista que a gente precisa entender essa espiritualidade de acordo com o território, que já é ricamente espiritualizado pela sua natureza, pelos seus povos e pela forma como ambos se relacionam”. Pai Amilton

Assim como essas duas lideranças, o frei Messias da arquidiocese do município de Santarém, no baixo Amazonas, também enxerga, na junção de povo e terra, a composição de território. Da mesma maneira, também viu o desrespeito se transformar em violência contra comunidades tradicionais. Enquanto ativista religioso, ele critica assiduamente o movimento de ataque a indígenas que presencia nas comunidades onde atua.

Na sua lembrança ainda é vívida a dor da comunidade Raposa Terra do Sol, que viu seu território em chamas durante uma empreitada de violência. Ele recorda que, na ocasião, ouviu de um dos moradores: “Frei, eles queimaram nossa escola, queimaram nosso hospital, mas não queimaram nosso sonho, e nós vamos resistir”.  Algum tempo depois e com muita força, a comunidade ainda existe, próspera e viva. Assim, ele entendeu que “a espiritualidade é o sonho que nós buscamos a cada dia”.

Que sonho é esse?

“O que nós estamos de fato construindo e o que nós poderíamos fazer, se nós não precisássemos gastar tanta energia apenas para existir?”, questionou a mestra em desenvolvimento sustentável na Amazônia, Celina Coelho. Ela esteve entre os ouvintes e chegou a essa reflexão através dos relatos dos palestrantes. Para ela, assistir ao painel proporcionou o entendimento prático da violência no território e o impacto na religiosidade e conexão espiritual com a natureza e a terra, nutrindo novas ideias para a construção do futuro que sonhamos. Afinal, como mencionou Frei Messias durante o painel, “sonho é espiritualidade”.

O Festival Psica Dourado tem patrocínio máster da Petrobras, do Nubank e patrocínio do Mercado Livre através da Lei de Incentivo à Cultura Rouanet e Ministério da Cultura. O apoio institucional é da Secretaria de Estado de Cultura e Governo do Pará. A realização é da Psica Produções, Ministério da Cultura e Governo Federal União e Reconstrução.