Quanto custa negligenciar a cultura no debate de mudanças climáticas

Motins Psica debate o preço de vender o que é nosso e a quem interessa essa comercialização

Texto: Maycon Marte | Edição: Gustavo Aguiar | Foto: Felipe Martins

Seja no preço do açaí ou nos na vida dos animais que fogem da mata ocupada descontroladamente, os exemplos mostram que perder as riquezas da terra é sempre o preço mais caro a se pagar. Essa foi a reflexão que embalou o painel da tarde desta sexta-feira (31), no Motins Psica. Agente territorial de cultura do município de Bragança, Bianca Góes explica que a resposta sempre esteve na soberania da cultura popular.

Góes conta que foi benzida ainda nova, por ordem do pai que temia a sua proteção, e lembra do chá que a avó fazia para curar o mal estar. Essas memórias remontam à sabedoria existente na cultura local cultivada há tantos anos. O descaso com estas riquezas, segundo ela, podem ser vistos na deterioração do espaço físico, em especial, do meio ambiente.

Em um exemplo prático, Bianca narra a experiência de estar no território indígena Tembé no momento de desapropriação do espaço. Esse foi o movimento de expulsão dos invasores que habitaram o lugar descontrolado, processo que ocorreu em meio a criação do Ministério dos Povos Indígenas, após a posse do presidente Luís Inácio Lula da Silva (PT). Com a desapropriação, os animais voltaram a habitar as matas e a caça dos Tembé retomou a fartura.

“Eles notificaram o Governo que haviam muitos invasores no território deles e disseram: a gente quer que esse povo saia, porque eles estão desmatando, construindo muitas casas aqui. A Polícia Federal foi para lá e retirou os intrusos. É um processo triste, porque eram pessoas humildes, mas era a terra deles, um território demarcado”, lembra a agente territorial.

Essa, segundo ela, é a prova de como o desrespeito com o saber tradicional e a cultura local pode afetar o meio ambiente que, portanto, deve ser pauta da agenda climática. Ela reforça que a cultura, enquanto sabedoria, passa pela arte, gastronomia e língua, mas também pelo trato com a terra, a fauna e flora presentes no território.

Cultura como ferramenta

Somando no debate, a representante da Confluência das Favelas, Luzia Camila, destacou o potencial da cultura na reivindicação de mudanças climáticas e ambientais. A sua atuação passa pelo mapeamento de informações e experiências, o que resulta em relatórios mais técnicos sobre a qualidade de vida e a escuta de comunidades tradicionais ou periféricas. Ela orienta atualmente um trabalho que coleta receitas de mulheres no município de São Domingos do Capim, com o objetivo de proteger a sabedoria de uma comunidade que desenvolve ferramentas na sua cultura alimentar.

Ela defende que os mesmos registros sejam feitos com a cultura local, para que o acúmulo dessa saberia, em forma de manifesto, possa ser utilizado para provar aos autoridades. Uma oportunidade que pode ser aproveitada em eventos como a Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (Cop 30), em novembro deste ano.

“Às vezes as metodologias vêm de cima para baixo, então é interessante quando a comunidade consegue se preparar para produzir seus próprios dados… A gente tem muito conhecimento e sistematizar isso é essencial para o território”, afirma.

O Festival Psica Dourado tem patrocínio máster da Petrobras, do Nubank e patrocínio do Mercado Livre através da Lei de Incentivo à Cultura Rouanet e Ministério da Cultura. O apoio institucional é da Secretaria de Estado de Cultura e Governo do Pará. A realização é da Psica Produções, Ministério da Cultura e Governo Federal União e Reconstrução.