Cop 30 na Amazônia escancara falta de representatividade da população tradicional

Esforço é coletivo e exige aliança da sociedade civil para driblar desigualdades

Texto: Maycon Marte | Edição: Gustavo Aguiar | Foto: Felipe Martins

Na tarde deste sábado (1), no Motins Psica, as palestrantes Tatianny Soares (rede Jandyras) e Mariana Guimarães (Organização Mandi), questionaram os espaços da  Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (Cop 30). Elas são articuladoras e ativistas ambientais, e demonstram preocupação com a guerra por representatividade durante o evento. Em conferências anteriores, Guimarães lembra, por exemplo, de proibições contra manifestantes, que tinham as manifestações limitadas apenas às ruas.

A limitação dos protestos considera o contexto político dos três últimos países que sediaram o encontro climático: Egito, Emirados Árabes e Azerbaijão. Por isso, uma das expectativas dos movimentos sociais para a vinda da conferência a Belém é a possível abertura de posicionamento. Embora já se saiba que medidas estão sendo tomadas para limitar essas ações, como a redução do número de credenciais nas delegações.

Para enfrentar essa e outras barreiras, Guimarães enfatiza a necessidade de haver alianças entre as organizações, na intenção de fortalecer a comunicação e intensificar as vozes da militância climática. Ela ainda ressalta que esse é um movimento já feito por lobistas e delegações com interesses contrários à agenda ambiental, por isso, é também o melhor caminho para fazer frente à desigualdade do evento.

“A gente considera aquele espaço importante, porque se nós não estivermos, os lobistas do petróleo vão estar. Teve um dado da Cop 28 em Dubai que dizia que, para cada uma pessoa de comunidade tradicional presente, tinham sete lobistas do petróleo”, lembra Guimarães.

Muito espaço para poucos

A principal crítica do debate foi o processo excludente de construção da conferência que deixa de fora, em especial, a sociedade civil. Guimarães lembra que na última edição, a Cop 29, realizada no Azerbaijão, a quarta maior delegação era composta por lobistas do petróleo. Isso acontece, segundo ela, porque o empresariado tem mais dinheiro para levar os seus representantes.

A geóloga e articuladora ambiental Tatianny Soares complementa que esse movimento reflete as disparidades vivenciadas a nível local. “O nosso papel é representar quem não vai conseguir estar nesses espaços e, a partir dessa representação, retornar à sociedade o que for decidido”, enfatiza. Pensando nisso, a Mandi, organização que representa, se dedica neste ano de Cop 30 a “fazer trabalho de base”, dialogando com todas as pessoas, sejam líderes políticos ou comerciantes locais.

Como tudo é decidido?

Uma mesa grande e mais de 190 países, culturas e línguas, decidindo mudanças sobre a agenda climática em um mesmo documento, com o arquivo aberto ao vivo no meio de tudo isso. A cena, embora possa parecer caótica, é o retrato do que ocorre nas discussões das conferências, movimento que não corresponde à urgência dos movimentos das comunidades. “Não está no nosso tempo, no tempo do território, porque a gente não tem como esperar eles decidirem onde colocar a vírgula no artigo”, critica Mariana.

Sobre a tomada de decisões, Tatianny não deixa de mencionar a urgência, porque, segundo ela, “a sede agora é de políticas públicas”. E, embora descreva o processo como um “jogo injusto”, não acredita que o futuro já esteja perdido. “A gente tem inúmeras ideias para adiar o fim do mundo, a gente só precisa de espaços como este para realizar isso”, conclui a ativista.

O Festival Psica Dourado tem patrocínio máster da Petrobras, do Nubank e patrocínio do Mercado Livre através da Lei de Incentivo à Cultura Rouanet e Ministério da Cultura. O apoio institucional é da Secretaria de Estado de Cultura e Governo do Pará. A realização é da Psica Produções, Ministério da Cultura e Governo Federal União e Reconstrução.