Reflexões foram guiadas na noite deste sábado (1), no Motins Psica
Para responder onde está o pensamento artístico pan-amazônico, é importante primeiro saber onde procurar. Essa foi a lição do painel da noite deste sábado (1), no Motins Psica, conduzida pelos multiartistas Orlando Maneschy e Romário Alves. Juntos, eles refletiram sobre os rumos do pensamento artístico no território e indagaram quais caminhos assumem os imaginários e as conexões na Amazônia.
Para entender o que é a arte produzida na Amazônia, segundo eles, é importante entender que neste território tem afeto. Em uma experiência como convidados durante um evento artístico em São Paulo, houve um choque com o que a mediadora descreveu como “robotização da vida”. Todo o processo, desde a chegada na cidade até as trocas no evento realizados na capital paulista foram distantes e impessoais.

“Se fosse na minha cidade eu tinha te buscado antes, se fosse o meu evento eu teria te buscado no aeroporto, te conhecido antes, levado para dar uma volta e te chamado de mana, essa é a diferença de fazer arte na Amazônia”, disse Bruna Suelen para a responsável pelo evento.
Somando na reflexão, Romário questiona o distanciamento entre os diferentes territórios presentes na pan-amazônia. “É questionar por que eu não conheço o Acre, por que eu não conheço o Amapá”, acrescenta. Ela ainda lembra que existem movimentos muito semelhantes aos feitos aqui, a exemplo da festa de cumbia trans realizada no Peru e que se assemelha muito a quadrilha Fogo no Rabo, da qual Romário participa.
O que é a Amazônia e seus paradoxos?
Romário Alves também lembra de um momento com o sobrinho, quando questionado pela criança, que apontava para o rio no horizonte, se aquilo que via era a Amazônia. E conta que respondeu, sem pensar: “a Amazônia é tu”. É nessa linha de paradoxos que mora a arte amazônica, que aponta o ser como algo intrínseco à arte, porém com ressalvas, como quando debatemos o financiamento dessa criação artística. “Como escapar do modelo do capitalismo financeiro que exclui movimentos históricos e eventos babadeiros?”, questiona.
Segundo ele, na sua trajetória, escapar da lógica capitalista foi o que lhe proporcionou reconhecer as suas origens artísticas e valorizar a arte que não existe apenas pelo dinheiro. Isso porque é o fazer a arte pela arte que movimenta seu processo criativo natural, algo que ele defende. “Isso não deve ser oprimido”.
Sobre esse modelo de produção, embora o Professor Orlando Maneschy concorde que o capital oprime o processo artístico, também acredita em um espaço de transformação nesse meio. “Entre você se vender e você estar operando mudanças naquele lugar, há algo que não podemos romantizar”, acrescenta.
A problemática alcança o seu ápice quando a mediadora Bruna Suelen intervém e questiona sobre o “porquê” desse paradoxo. “A gente está reivindicando um espaço para poder produzir arte e quando esse capital chega ele traz muitas consequências. Mas, a gente vai julgar quem está tentando sobreviver?”, reflete. Ela deixa a pergunta em aberto para que se procure uma resposta dentro da arte feita no território.

Onde está a arte amazônica?
Da parede das exposições às ruas da cidade, ouvindo essa conversa Nara Guaçu questionou o destino dessa arte quando rebateu o professor e curador Orlando Maneschy, sobre ele não conhecer a produção artística de Nara. Ela não foi alcançada pelas curadorias do artista, que ocupa majoritariamente espaços menos urbanos e populares. O curador devolveu questionando “onde a arte deveria estar e quem deveria vê-la?”.
É de comum acordo na mesa que não há resposta certa para nenhuma das reflexões levantadas nesta noite ou neste texto. Talvez a arte chegue na rua distante de um bairro periférico ou alcance as paredes caras de um museu. A única maneira de saber é fazendo-a.
O Festival Psica Dourado tem patrocínio máster da Petrobras, do Nubank e patrocínio do Mercado Livre através da Lei de Incentivo à Cultura Rouanet e Ministério da Cultura. O apoio institucional é da Secretaria de Estado de Cultura e Governo do Pará. A realização é da Psica Produções, Ministério da Cultura e Governo Federal União e Reconstrução.