Tecnologias ancestrais são as que guardam as respostas para proteger o futuro

Pensar soluções para a crise climática a partir da cultura também foi pauta do Motins Psica

Texto: Maycon Marte | Edição: Gustavo Aguiar | Foto: Felipe Martins

Proteger a agenda climática e ambiental para salvar o futuro precisa passar pela coleta de dados sobre as dificuldades reais enfrentadas pelas comunidades tradicionais, mas, sobretudo, pela proteção dessas informações. Esse foi o debate que encabeçou a tarde da quinta-feira (30) no Motins Psica, na mesa com o tema “Afim da Terra: tecnologias para regenerar o mundo”. Para as palestrantes Tay Silva, ativista climática, e Aline Vieira, coordenadora da Casa Preta Amazônia, a resposta do amanhã e do agora está no passado.

“O material que está sendo coletado vai para um servidor, onde é possível fazer um filtro, e quem tem domínio do servidor é quem vai fazer a distribuição de conteúdo, mas esse servidor é para a comunidade, então, o conhecimento que vai ser acessado sobre aquele território e como ele vai sair de lá é você que determina”. A afirmação da representante da Casa Preta Amazônia contextualiza a necessidade de capacitar as comunidades. Isso porque o conhecimento acumulado a partir do mapeamento de territórios não retorna até a origem da pesquisa, o que fragiliza a intenção em torno deles.

Embora a troca de dados seja necessária para que se apliquem novas ferramentas nos territórios tradicionais, Vieira enfatiza que sempre foi possível estabelecer filtros para proteger esse processo. Segundo ela, os sistemas podem ser programados para permitir que apenas parte dos dados obtidos seja compartilhada. Nesse sentido, o obstáculo é, sobretudo, quanto à intenção da utilização dos dados.

Sobre qualidade de uso e intenção, a ativista climática Tay Silva acrescenta que as comunidades devem reivindicar a soberania de dados. “Espero que a gente saiba o que queremos alcançar para que nós possamos movimentar esse jogo”, afirma.

Na prática

A partir de sua própria experiência enquanto moradora do distrito de Icoaraci, região metropolitana de Belém, Tay relembra da inserção recente de um equipamento que mede a qualidade do ar, temperatura e umidade no seu bairro. A tecnologia é fruto de uma parceria com o Laboratório da Cidade, organização sem fins lucrativos que desenvolve soluções sustentáveis na Amazônia. Na ocasião, o equipamento só foi instalado dentro da comunidade com a permissão dos moradores e sob a condição de que tudo seria público e de fácil acesso.

“É um sensor que mede em tempo real a qualidade de ar e água. Os dados são bem técnicos, nada de saber ancestral, mas a gente só permitiu, enquanto coletivo, ter o sensor lá [em Icoaraci] se a gente [enquanto comunidade] conseguisse acessar os dados a qualquer momento e que fosse completamente compartilhado”, explica a ativista.

Antes da instalação, foi imposta a condição de que todas as informações captadas fossem contextualizadas para a sociedade, assim como o compartilhamento de saberes e técnicas de manuseio da tecnologia. Isso para que o conteúdo produzido sobre a comunidade permaneça dentro dos limites de Icoaraci, sendo utilizado em benefício dos moradores locais. Entre as vantagens, Tay destaca a importância de utilizar esses dados em diferentes ações de ativismo como manifestos climáticos, realizados pela sociedade civil organizada, que, com os dados, ganham um novo tom de formalidade na leitura de organizações de fora da Amazônia. Um exemplo prático disso são os documentos que denunciam os efeitos das mudanças climáticas apresentados pelas organizações e movimentos sociais nas conferências internacionais, como a Cop 30.

Na sua visão, esse modelo de compartilhamento de dados públicos estabelece um avanço no controle dessas informações, que dessa vez é conduzida por quem realmente é afetado pela crise climática: a população. “O problema não é registrar ou ter muitos registros dos mesmos fatos, o problema é a intenção desses registros”, observa Tay.

Movimento de retomada

Entre os ouvintes, a pesquisadora e mestre em artes visuais Daris Rubio, que pertence a uma comunidade indígena no México, relatou que lidera um movimento de mapeamento do próprio território. Ela se vê nos apontamentos das palestrantes e explica que usa a arte para recuperar registros culturais e informações de Hidalgo, território indígena localizado em Sierra Gorda, região mexicana.

“Estou fazendo eu a luta. Trabalhando com projetos artísticos que fazem a coleta de dados no rio e na terra, mas sempre de um olhar artístico, tecnológico e científico”, explica.

O Festival Psica Dourado tem patrocínio máster da Petrobras, do Nubank e patrocínio do Mercado Livre através da Lei de Incentivo à Cultura Rouanet e Ministério da Cultura. O apoio institucional é da Secretaria de Estado de Cultura e Governo do Pará. A realização é da Psica Produções, Ministério da Cultura e Governo Federal União e Reconstrução.