Se a música é um rio, existem muitas pedras no caminho

Levar a sua sonoridade ao público exige do artista muitas habilidades e um pouco de sorte

Texto: Lorena Oliveira | Foto: Kléber José Jr. | Edição: Gustavo Aguiar

Muitas são as vozes que ecoam na Pan-Amazônia. Algumas delas escolhem se expressar por meio da música. No segundo dia de Motins, um circuito de formação do Psica, o painel “Os desafios da música independente na Pan-Amazônia” abordou as dificuldades enfrentadas por artistas para divulgar seus trabalhos. O bate-papo contou com a participação de Fraileijón (Colômbia), de Lary Go e Strela (Manaus) e de Jhimmy Feiches (Macapá), com mediação de Liege.

“Artista? Artista do norte? Artista de Macapá?”. Esses foram alguns questionamentos que Jhimmy Fetiches, músico, ouviu durante o início de sua carreira. A trajetória nesse caminho iniciou ainda na infância, quando ele assistia às performances de Michael Jackson na televisão. Mais tarde, com o amadurecimento e algumas mudanças de perspectiva, o fizeram questionar isso. “Será que eu ouvia ele [Michael] por que eu realmente gostava ou fui ensinado a gostar?” Esse ponto de virada o fez encontrar, no quintal de casa (como ele mesmo diz), sua referência mais importante, seu pai. Um músico exímio que toca batuque e outros instrumentos.

Os questionamentos também perseguiram duas mulheres que tentavam trilhar o mesmo caminho. Lary Go e Strela, de Manaus, começaram na música em 2015. Lary conta que produzir arte se tornou um instrumento de resistência. “Entrei nesse ramo participando de batalhas de rap. Em 2018, minha irmã e eu decidimos que íamos fazer um som. A gente começou movidas por essa vontade de falar contra o racismo, o machismo e o preconceito com povos do norte.”, aponta.

Os artistas contam que as dificuldades são inúmeras. Fazer música independente requer muito aprendizado, esforço, organização, financiamento, formação, influências, interesse do público e muita sorte. Esses elementos compõem o chamado projeto político artístico, que, segundo Liege, hoje, é um projeto que invisibiliza artistas nortistas de produzirem seus trabalhos. Esse é um reflexo da colonialidade sobre as populações do sul global.

Os desafios escondem o preconceito contra a arte feita na Pan-Amazônia, reveladas na tentativa de diminuir as vozes que ecoam aqui. Os custos e as distâncias são muito altos e representam a principal barreira enfrentada para divulgação das músicas fora dos locais de origem. Em 2020, Liege, multiartista, lançou um disco e se preparava para fazer uma turnê de divulgação pelo Brasil. A crise sanitária e a falta de verbas a impediram de realizar esse sonho. Mas ela não desistiu, continuou produzindo e investindo em suas composições. Neste ano, Liege completa 20 anos de carreira. São 20 anos levando a sua mensagem de resistência.

Além das pedras, muitos artistas encontram boas companhias durante o caminho. A ajuda é fundamental para driblar as dificuldades. Foi isso que ajudou Lary Go e Strela a conquistarem espaço na música. Elas tiveram ajuda de uma produtora, que as ensinou a investir na carreira, produzir sons com qualidade, inscrever projetos em editais, fazer marketing e utilizar outras ferramentas para impulsionar seu trabalho artístico.

Já Jhimmy compartilhou que, no início da carreira, ouvia com frequência um ditado que o incomodava: “santo de casa não faz milagre”. A intenção era desmotivá-lo a seguir em frente, diminuindo de sua vivência em Manaus diante da possibilidade de sucesso na carreira. Quando ele pensa na música e na arte que produz, entende que fazer o seu som, com as suas influências, já é ter o santo da sua casa fazendo milagres, o milagre do (re)existir.

O Festival Psica Dourado tem patrocínio máster da Petrobras, do Nubank e patrocínio do Mercado Livre através da Lei de Incentivo à Cultura Rouanet e Ministério da Cultura. O apoio institucional é da Secretaria de Estado de Cultura e Governo do Pará. A realização é da Psica Produções, Ministério da Cultura e Governo Federal União e Reconstrução.