Jeft e Gerson contam a história de muitas tentativas e vontade de fazer dar certo
Texto: Lorena Oliveira | Foto: Liliane Moreira | Edição: Gustavo Aguiar
“Meu pai mexia com jogo no bicho e vendia bombom. E foi nesse meio, em casa, na feira, que a gente teve contato com música, nos discos, nas fitas cassetes, nos cds. A gente cresceu ouvindo brega, carimbó, underground, rock. Isso criou um desejo enorme de misturar estilos.” contam os idealizadores do Festival Psica, um festival periférico, preto, amazônida. Os acertos, os tropeços, as experiências, os choros e as risadas foram compartilhados por Jeft Dias e Gerson Junior, no painel “Festival Psica: uma linha do tempo”, que encerra o Motins, o circuito de formação do Festival Psica.

Como todo bom adolescente, as primeiras referências musicais aconteceram na nesse período rebelde, com bandas de rock, tipo Chorão. A família teve um papel importante nesse processo. Eles contam que o pai comprou parcelado (no carnê Yamada) um passaporte para eles irem a um festival ver Sepultura, Jorge Ben Jor e Madame Saatan. Mal sabiam que o destino ia fazer eles cruzarem com essas pessoas novamente, em outro palco, o do Psica.
Entre 2008 e 2009, o sonho de trabalhar com música começava a se materializar. Eles organizavam festas para um público pequeno, cerca de 5 a 10 pessoas, que, geralmente, eram família e amigos. À falta de público, eles atribuem as músicas psicodélicas turcas dos anos 60 (gargalham). Até aqui, tudo era muito divertido, mas não dava retorno.
Depois disso, Jeft foi chamado no vestibular para cursar Engenharia da Computação no interior de São Paulo, ainda nos primeiros anos da política governamental de incentivo à educação, o Sisu – Sistema de Seleção Unificada. Novamente, a família foi responsável por mais uma virada na vida dele. Sua avó morria de saudades e ligava todos os dias pedindo para que o neto retornasse. Inconformada, escreveu de próprio punho uma carta direcionada ao presidente pedindo a transferência do neto para a Universidade Federal do Pará, na intenção de fazer a cria voltar para Belém. Ele não conseguiu a transferência. Mas, vendeu um computador de tela rachada e uma TV de 14 polegadas e voltou para Belém (era tudo o que ele tinha).

Com a volta, eles queriam fazer de novo aquilo que fazia o coração bater mais forte: festa. Em 2011, circulava pela fina rede social Orkut um cartaz de divulgação de uma festa intitulada “Dance like hell”, com ingresso a 8 reais. Deu para fazer um dinheiro. No ano seguinte, nasceu o Festival Mongoloide. Aqui é preciso abrir um parêntese e explicar esse nome: Mongoloide é o nome de uma música de uma banda que ambos gostavam. Na época, não se tinha tanta discussão sobre capacitismo, o que aprenderam anos depois e decidiram mudar o nome do evento. De 2014 a 2017, o festival Mongoloide foi acontecendo, tinha pouco público, acumulava alguns prejuízos. Mas, eles não desistiram.
As coisas foram acontecendo graças a um trabalho coletivo. Amigos e pessoas próximas contribuíram com empréstimos de R$600 (que talvez não tivesse retorno) para fazer o festival. O dinheiro era para alugar a casa de shows, para produção do bar e estrutura. Eles precisavam cortar custos, então faziam de tudo. “Nessa época, eu era o cara que ficava na portaria, quebrava gelo, limpava o chão, organizava o palco, só não cantava, né?”, Gerson conta isso aos risos.
As edições de 2015 e 2016 são marcadas por alguns feitos importantes. Em 2015, eles conseguiram colocar no line up uma pessoa que fazia um som muito conhecido por eles, Nelsinho Rodrigues. O show lotou. Em 2016, foi realizado o embrião do Motins, o circuito de formação Mongoloide. Um evento que queria ouvir o público discutindo temas de interesse, como veganismo e contracultura no audiovisual.
2017 foi o último ano do Festival Mongoloide. Foi feito um concurso para definir um novo nome, mas nenhum agradou. “Queríamos algo que tivesse a ver com a gente, mas que não fosse tão óbvio. Escolhemos ‘Psica’ porque tem a ver com cultura amazônica, mas foi loucura porque o senso comum é que ‘psica’ é coisa negativa, mas a gente não vê assim.”, conta Jeft.

No ano seguinte, o primeiro Festival Psica foi realizado, com pouco financiamento porque as pessoas que emprestavam aqueles 600 reais, já não tinham mais aquele mesmo interesse em apostar às cegas. Em 2019, a bilheteria surtiu um efeito diferente, melhor, com equipe de comunicação profissional e a realização de um sonho no palco: Sepultura. Em 2020, devido à pandemia, o evento foi em formato drops, em casa. No segundo ano da emergência sanitária, aproveitaram a ócio do confinamento para escrever projetos em editais de financiamento cultural. Foram aprovados e executados 33 projetos escritos por eles em diversos editais. Um deles, o Festival Psica de 2021, que já trazia um line up de peso com Elza Soares e Gigante Crocodilo Prime.
Em 2022, eles sofreram mais um baque. “Esse foi um dos festivais mais doídos, em todos os sentidos. A gente ia para os bastidores com muita preocupação.” Eles tiveram problema com patrocínio. Algumas marcas prometeram que iriam patrocinar o festival, mas isso não aconteceu. Para o evento acontecer, eles arcaram com os custos e pagaram um preço alto: 1,2 milhão de reais.
Com trabalho e esforço, a dupla de irmãos conseguiu reverter a situação e fizeram um festival gigante em 2023, no Mangueirão. O primeiro patrocinado pela Lei Rouanet. “O festival de 2024 foi um orgulho muito grande para gente, conseguimos entregar tanta coisa linda, expandir o universo amazônico juntando grandes nomes daqui com vários artistas de fora que têm a nossa cara.”, explicaram Jeft Dias e Gerson Jr.
O Festival Psica Dourado tem patrocínio máster da Petrobras, do Nubank e patrocínio do Mercado Livre através da Lei de Incentivo à Cultura Rouanet e Ministério da Cultura. O apoio institucional é da Secretaria de Estado de Cultura e Governo do Pará. A realização é da Psica Produções, Ministério da Cultura e Governo Federal União e Reconstrução.