Painelistas: Raissa Coutinho, Iara Souza e Aicha Siqueira

Abrindo a tarde do último dia de programação do Motins, o painel “A técnica é delas: A base feminina na Produção” pautou o papel das mulheres na produção de projetos artísticos, trazendo as experiências práticas de Raissa Coutinho, Iara Souza e Aicha Siqueira, que também compartilharam os desafios e episódios de preconceito vividos nos bastidores.

Aicha Siqueira, técnica de som com atuação em produções de cinema, já integrou grandes projetos no Brasil, como a série Arcanjo Renegado. Após trabalhos fora do estado, retornou a Belém em 2023 para atuar localmente. Ela destacou como a entrada no mercado ainda é mais difícil para mulheres, relembrando períodos em que exerceu sua função sem remuneração, recebendo apenas alimentação. Para se destacar, criou uma estratégia de identidade visual — meias até o joelho, vestido e all star de cano alto — como forma de ser lembrada nos sets.

“Eu tive muita dificuldade de entrar no mercado recebendo. Estava no mercado de graça, ganhava suco e coxinha. Mas eu adorava isso, adorava fazer e estava sempre em busca de conhecimento”, contou Aicha Siqueira.

Raissa Coutinho, artista dos palcos desde 2016, passou a atuar nos bastidores a partir de 2021, no Festival Psica, nas funções de direção técnica, direção e produção de palco. Ela destacou o desafio de liderar equipes majoritariamente masculinas, o que muitas vezes causa estranhamento. “Sendo uma menina no palco, a gente lida muito com essa situação de não encararem a gente profissionalmente. Precisamos fazer um esforço maior para dizerem minimamente ‘não, realmente, ela sabe o que ela está fazendo’”, comenta Raissa.

Iara Souza, professora de iluminação cênica da Escola de Teatro e Dança da Universidade Federal do Pará (ETDUFPA), atua na área há quase 30 anos. Iniciou sua trajetória no teatro, com foco em montagem e conciliou a carreira acadêmica com a prática profissional. Hoje dedicada exclusivamente ao ensino, relembra ter enfrentado diversas tentativas de opressão ao longo da carreira, em ambientes dominados por homens.

Mesmo com avanços, as situações de assédio e preconceito ainda são recorrentes, especialmente em outros polos de produção, como o Sudeste, segundo as painelistas. Esses comportamentos machistas influenciam na forma como as mulheres são percebidas e, por vezes, rotuladas como arrogantes ao se posicionarem.

As mulheres seguem construindo redes de apoio e fortalecendo suas trajetórias coletivamente, abrindo caminhos para que seus trabalhos sejam reconhecidos com respeito e equidade. “Eu quero ver mulheres fortes, eu quero ver mulheres com autonomia na sua profissão”, finalizou Aicha.

Foto: Wagner Filmes

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