Palestrante: Eduardo Barbosa
Para encerrar a programação do segundo dia de Motins na Casa Dourada, Eduardo Barbosa ministrou a palestra “Imaginário caribenho na formação da música periférica paraense: o surgimento da lambada, guitarrada e brega”. O músico, pesquisador e produtor executivo atua na valorização da música periférica do Pará, com foco nesses gêneros e nas conexões caribenhas da Amazônia. É cofundador da Lambada Social Club e da Roda de Lambada, além de organizador das Noites de Lambada e um dos idealizadores do Anhangá.
Segundo o pesquisador, a presença da música caribenha na região antecede o surgimento da lambada, da guitarrada e do brega. Esses estilos são fruto de um processo que já acontecia no Pará desde os anos 1930, quando ritmos caribenhos chegaram ao estado, muitas vezes por meio do contrabando, em um contexto histórico marcado pela Belle Époque e pela construção dos portos.
“Era uma música que ficou cerceada à periferia, o centro não podia tocar. Há relatos de controlistas que, ao se apresentarem, não recebiam cachê”, destacou. Nesse período, festas que tocavam esses ritmos eram marginalizadas e frequentemente retratadas de forma hostil nos jornais. Embora também circulassem nas rádios, a principal forma de difusão ainda se dava de maneira informal.
Eduardo explica que houve uma espécie de tradução cultural: ritmos como merengue, mambo e bolero passaram a ser incorporados e reconhecidos como parte da música paraense. “Não são originários daqui, mas se tornaram profundamente presentes na nossa cultura”, afirmou.
Ele também relembrou marcos importantes desse processo, como as gravações de merengue feitas por Osvaldo Oliveira, nos anos 1970, que contribuíram para consolidar o ritmo no estado. Na sequência, diversos artistas passaram a explorar essas sonoridades. Pinduca, por exemplo, mesclou essas influências ao carimbó, incorporando guitarra elétrica, baixo e outros elementos. Já o brega teve influências do zouk, com destaque para Tonny Brasil. A Banda Calypso também desempenhou papel importante na difusão e popularização desses ritmos, mesclando diversas referências caribenhas em seu repertório.
Atualmente, essas sonoridades seguem vivas na cultura paraense, presentes em festas, festivais e nas pistas de dança, com estilos próprios de dançar e celebrar. A palestra evidenciou como essas trocas culturais moldaram uma identidade musical única na Amazônia, reafirmando a força das periferias na construção da cultura brasileira.
Eduardo Barbosa é músico, pesquisador e produtor executivo dedicado à valorização da música periférica paraense, com foco na lambada, guitarrada, brega e nas conexões caribenhas da Amazônia. É cofundador da Lambada Social Club, da Roda de Lambada, organizador da Noites de Lambada e um dos idealizadores do Anhangá. Formado em Música pela UEPA, é mestrando em Música da Amazônia, pesquisando o imaginário caribenho em Belém do Pará. Em 2024, apresentou-se no México pelo Festival Internacional Cervantino e, em 2026, realizou turnê pelo Nordeste com a Lambada Social Club.
Foto: Thais Verônica