A Ancestralidade se fortalece na música

Entenda quais histórias são contadas pelas sonoridades tradicionais  

Texto: Lorena Oliveira | Foto: Liliane Moreira | Edição: Gustavo Aguiar

A cultura musical Pan-Amazônica é construída a partir de experiências e histórias de muitas populações, que veem a música como uma forma de expressão dos sistemas de conhecimentos ancestrais. Essa discussão foi feita no painel “Kuximawara: O som dos nossos ancestrais” no último dia de Motins, circuito formativo do Festival Psica, realizado em Belém (PA). Estiveram presentes Agenor Vasconcelos (músico e pesquisador de Manaus), Ian Wapichana (artista índigena do Roraima) e Rawa (artista índigena do Peru), com mediação de Adelina Borari (artista índigena de Alter do Chão).

A musicalidade é um elemento muito presente na vida dos povos indígenas. Nas festas, rituais, no dia a dia. Em Alter do Chão, Santarém, existe uma festividade milenar chamada Sairé, conhecida como celebração da criança. A celebração é composta por momentos de leitura de ladainhas em latim e rodas de dança, em que são tomadas bebidas típicas. Ela ocorre em dias de lua nova, com objetivo de ter boas colheitas e fartura. “Os cantos embalam todo o Sairé, eles ajudam na conexão com nossos encantados”. afirma Adelina Borari, artista.

No entanto, o processo de colonização também afetou essa produção cultural. Em 1943, uma liderança religiosa chegou a Alter do Chão e proibiu a realização da festa, com a justificativa de que as reuniões e as bebidas podiam criar confusão e brigas. Em 1973, as celebrações foram retomadas, mas muito havia se perdido. “A flauta era um instrumento que a gente utilizava muito no início. Quando a festa voltou, já tínhamos outros sons, veio a guitarra, o banjo. Hoje não se encontra mais flauta por lá. As danças também mudaram. Minha bisavó conta que quando era mais jovem, ela ensinava o curimbó para as pessoas e, atualmente, isso se perdeu.”, conta Adelina.

A importância do resgate dessas sonoridades produzidas por nossos ancestrais se dá porque nos conecta com um pouco de quem nós somos. As melodias, os cantos, os instrumentos e o modo de fazer são passados de geração em geração, adicionando novas histórias e narrativas relacionados às vivências dos povos tradicionais. Segundo Ian Wapichana, a música embala muito mais do que as celebrações, mas auxilia na resolução de conflitos, criação de harmonia, fortalecimento das religiosidades e cultuação das divindades.

Esse processo de rememoração e fortalecimento da cultura musical enfrenta alguns desafios impostos pelas estruturas do neocolonialismo. “A indústria musical  te corrói de uma forma devastadora. Vejo muitas pessoas sendo influenciadas e esquecendo da sua cultura, de onde vieram. Isso acontece muito com povos indígenas, pela colonização, pelo alcoolismo, pelas drogas, pelas influências dos algoritmos da internet.” explica Ian Wapichana.

Uma das formas de violência contemporânea empregadas contra os sons ancestrais é a folclorização. Práticas e manifestações culturais de populações tradicionais têm sido consideradas parte do folclore brasileiro, um exemplo disso é a figura do Curupira. O problema dessa prática é a instrumentalização do senso comum e das políticas públicas. Isso porque, o folclore atua na retirada das narrativas de seus contextos, com apagamento das origens, e difusão do Brasil como um país de um povo só. Logo, esse povo único tem uma história única. As culturas indígenas, que são sistemas completos de conhecimento, são transformadas em apenas lendas. 

Diante disso, é preciso ser sagaz para se reconectar. A música é um dos caminhos para isso. “Precisamos repensar a chegada das novas tecnologias e do avanço dessa vergonha que toma a cabeça dos nossos jovens em manter as culturas indígenas vivas. Não é fácil fortalecer nossas origens diante de uma realidade de preconceito e violência, mas é possível. Temos muitos conhecimentos, modos de fazer, cantos, línguas, músicas, instrumentos.”, finaliza Ian.

O Festival Psica Dourado tem patrocínio máster da Petrobras, do Nubank e patrocínio do Mercado Livre através da Lei de Incentivo à Cultura Rouanet e Ministério da Cultura. O apoio institucional é da Secretaria de Estado de Cultura e Governo do Pará. A realização é da Psica Produções, Ministério da Cultura e Governo Federal União e Reconstrução.