A música como ferramenta de cura

Conhecimentos tradicionais se mantém vivos a partir dos ritmos da cultura musical amazônica

Texto: Lorena Oliveira | Foto: Liliane Moreira | Edição: Gustavo Aguiar

Desde os anos 60, a medicina tem percebido a música como instrumento de cura para diversas doenças. Mas, a ancestralidade amazônica já sabe disso há muito tempo. No painel “Sabedoria popular e encantaria de cuidados: a música como cura ancestral” abordou essa temática, com todos os conhecimentos e experiências de Dona Onete (Belém), Mestre Damasceno (Salvaterra), Mam’eto Nangetu (Belém), Edson Catende (Belém) e Lourival Igarapé (Icoaraci), com mediação de Bruna Suelen, diretora criativa do Psica. A conversa foi compartilhada com casa cheia e muito interessada em ouvir grandes nomes da cultura paraense.

Para Edson Catende (Belém), advogado, babalorixá e fundador do Grupo de Teatro Bambarê e do Bloco Afro Ita Lemi Sinavuru, a música e a ancestralidade caminham juntas. Isso porque as letras, melodias e formas de interpretação que envolvem uma apresentação sempre remetem aqueles que vieram antes de nós. Tudo é música. O som das folhas, da chuva, das pessoas falando. O poder da música é além da diversão, porque ela consegue chegar a lugares que só podem ser atingidos com essas ondas vibracionais.

“Utilizamos ela (música) para fazer um chamamento de fartura, saúde, boas energias. Ela nos conduz a refletir sobre a vida. Só conseguimos isso porque ela nos conecta com algo maior, a nossa ancestralidade”, explica Mam’eto Nangetu (Belém). A saúde também se beneficia muito dessa relação com música e conhecimentos tradicionais.

Lourival Igarapé, mestre de carimbó de Icoaraci, nos conta que quando era criança, por volta dos cinco anos, passou por uma experiência de quase morte, em que foi salvo pelos saberes ancestrais. Ele foi ao igarapé buscar água, com a irmã. Ao chegar lá, avistou dois vultos que o fizeram passar mal com inchaço e febre. Foram dias de agonia, tomando remédios comprados na cidade de Igarapé-Açu, mas nada o fazia melhorar.  Pajé Nestor, um homem esguio, com a pele seca, foi vê-lo após dois dias de mal-estar. Ele fez remédios, utilizou cantos e rezas. Isso salvou a vida do menino.

Uma vida que, novamente, hoje, ele viu transformada pela música. “Gosto muito de cantar e de levar as minhas letras às pessoas. Escrevo coisas sobre o meu cotidiano, sobre o que vivo, o que vejo. Depois de muito tempo escrevi uma letra para minha avó, sobre suas plantas. Me orgulho de cantar para ela. Se eu não fosse envolvido na cultura popular do carimbó, eu não existiria. Posso dizer que sou muito mais saudável hoje porque faço música.”, afirma Lourival Igarapé.

A resistência também é uma força importante passada pela música. Dona Onete, mestra de carimbó, afirma que, muitas vezes, utilizou suas letras para entrar em espaços que tinha sido impedida. O machismo e o preconceito com suas raízes nortistas tentaram barrar sua voz nas rodas de carimbó, no início de sua carreira. Mas, ainda bem que ela resistiu.

Suas letras remetem a experiências que ela tem em sua vida, a conhecimentos que aprendeu, a pessoas que se relacionou. Quando observa sua trajetória, ela diz que é muito importante cuidar da riqueza de nossas crendices e feitiçarias, em suas próprias palavras. “Aqui nós temos algo muito importante, nossa sabedoria, nossas crendices. É nosso? Sim, então vamos valorizar.”, aponta.

Esses sistemas de conhecimentos passados pela música formam sons que curam a alma e renovam as energias. Mas, eles têm enfrentado um processo de perda devido à pressão da internet, desinteresse dos jovens e políticas públicas opressoras. O conselho de Dona Onete e Mestre Damasceno é: exercite a sensibilidade, o olhar, a atenção, o cuidado com a gente, com nossa família. Isso nos fortalece para seguir mantendo a tradição e a cultura vivas.

O Festival Psica Dourado tem patrocínio máster da Petrobras, do Nubank e patrocínio do Mercado Livre através da Lei de Incentivo à Cultura Rouanet e Ministério da Cultura. O apoio institucional é da Secretaria de Estado de Cultura e Governo do Pará. A realização é da Psica Produções, Ministério da Cultura e Governo Federal União e Reconstrução.